sexta-feira, 24 de julho de 2009

112. Lynch on Moby



Do novo álbum, Wait for Me. Animação de David Lynch (muito inspirado em Frank Miller e Loustal).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

111. "Profissões"

Logo na primeira vez que a ouvi, em criança, a expressão "profissão de fé" causou-me estranheza. Ainda me explicaram que profissão não significa só ofício, mas a circunstância de os padres oficiarem missas deitou a perder toda a possibilidade de reconciliação racional com o conceito: a institucionalização da intimidade religiosa sempre me pareceu um paradoxo.
Mas não só a profissão da fé: também os profissionais da independência e da heterodoxia me constrangem quando as reivindicam pública e repetidamente, como se assim as acrescentassem.
Exceptuam-se aqueles que o fazem com graça, e a cantar.



110. Da espera sem quartel

Ainda a propósito da paciente espera da "palavra-resumo":

a "Allemanha, esse paiz do philosophismo e das methodificações" (Levy Maria Jordão, O Fundamento do Direito de Punir, 1853).

"Filosofia" e "metodologia" seriam tão (lá está, falta-me aqui o advérbio) escassos.

terça-feira, 7 de julho de 2009

109. Fixações


Não me passou despercebido, mas na altura certa não consegui fazê-lo. Felizmente somos uns animais, temos gavetas para tudo, mesmo que seja o que o Bénard da Costa podia ter chamado um dos nossos livros da vida, tudo é arquivável.

"Molero diz que tudo pode ser fabricado, incluindo a morte e o amor, muito embora seja mais cómodo, menos definitivo, esperar a palavra-resumo das fontes do instinto, a mais acabada forma de subterfúgio em que se não coloca em jogo nada que seja fundamental" (Molero, a páginas 90).

terça-feira, 23 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

107. Hay que tenerlos (e se for preciso, importem-nos)

Há dias, deliciei-me com uma salada de tomate extraordinária na Alemanha. Tomates verdadeiros, doces e sumarentos, de sabor intensíssimo. Aqueles a que chamávamos coração-de-boi e que comíamos só com sal grosso e um fio de azeite dentro de um pão. Antes de usarmos o dinheiro dos alemães para produzir estas bolas insípidas de água vermelha que nos vendem por tomates.

domingo, 24 de maio de 2009

106. Evoluções






















Prisão de Bodmin, Cornualha

(última utilização em 20 de Julho de 1909)

























St. Ives, Cornualha

(última utilização em 7 de Maio de 2009)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

quinta-feira, 16 de abril de 2009

104. Precisa-se de um Ministério Público para o Ministério Público

Desde o princípio deste blog que procurei não escrever sobre a espuma política, judiciária, etc. O ângulo morto não pretende imiscuir-se no "debate cívico", nem é agente da "democracia participativa". Mas hoje não resisto a manifestar a minha imensa perplexidade com as declarações do dr. João Palma, que, na sua tomada de posse, afirmou: "a acção penal exclui os mais poderosos e influentes". A acção penal, de que o Ministério Público é titular.
Depois de se queixar aos jornais das eventuais pressões ilegítimas sofridas pelos magistrados titulares de certo processo, em vez de pedir, como devia, a sua investigação a quem de direito, este exercício de auto-crítica fica a meio caminho entre o patético e o confrangedor.
Num qualquer país decente, alguém instauraria um processo de averiguações, tendente a saber se estes desabafos são compatíveis com o exercício das funções; ou, ao menos, alguém faria um cartoon.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

103. Amores verdadeiros



Until the end of time / I'll be there 4 U
U own my heart and mind / I truly adore U
(...)
U could burn up my clothes
Smash up my ride (well maybe not the ride)

quinta-feira, 26 de março de 2009

sexta-feira, 13 de março de 2009

101. "Nothing gold can stay"

A velhice tem vários começos. O primeiro acontece quando os tornozelos desistem de jogar à bola. Depois, do nada, começamos a pensar em todas as coisas que não teremos tempo de aprender.
Por outro lado, à medida que o tempo passa, é cada vez mais provável ferrar e não perder uma truta de 3 quilos. Mesmo que só restem, na melhor das hipóteses, umas 35 épocas.

domingo, 1 de março de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

99. All that is solid melts into air

Nos últimos tempos, a rádio deixou de matraquear a publicidade dos bancos ao crédito à habitação. Spreads, Euribor, taxa fixa, tudo se desvaneceu e já não se sabe se realmente chegou a existir, mesmo no éter.
Ouvi hoje o novo must: uma conta-poupança, com entregas a partir de 25 euros por mês e, de prémio, uma viagem de avião "para a Europa", ou um desconto de 50% num seguro qualquer.
Sob o lema: "pense em si, poupe".
Quem diria.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

96. Ver, o que é?









sempre viste mal
dizem-me
é um arco falso

eu sinto_____uma ponte
mas é talvez o ângulo
deste lado das grades

95. Jardins lusitanos




sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

94. Not what you think:



... this is not a photoblog.
Faz hoje um ano que o underskincomma começou a lançar os seus filamentos por aí. Parece, mas não é, um blog de fotografia; é uma coisa com fotografias dentro, cuja estrutura - e única regra constante - é clara desde o princípio: a composição por "binómios". Não há texto sem fotografia nem fotografia sem título. Na maior parte dos casos, o sentido é dado pela conjugação (ou, às vezes, interferência) da imagem com o título. Trata-se, assim, de uma subversão (ou, em sentido que já veremos, superação) da velha querela - no reino da fotografia e dos fotógrafos - sobre se as fotografias podem ter um título: sendo a fotografia já, em si mesma, uma apropriação subjectiva ou mesmo falsificação do real, a aposição de um título ou de um texto condiciona e complica o sentido, desviando a atenção da "pureza" da imagem e sobrecarregando-a com dimensões semânticas exteriores à simples percepção visual.
Se esta discussão pode ter lugar na fotografia, não o tem ali onde aquela perturbação do olhar é assumida como parte essencial da obra, que por sua vez consiste em mostrar "um mundo que, sendo o nosso, não é o nosso". Mostrar, e não construir, porque se vai percebendo, em cada desenvolvimento, que ele já existe algures - só não sabemos tocar o eixo sobre que gira, apesar das referências centrífugas (Tom Waits, Sylvia Plath, a perda, o sonho, o humor, o alien, a ilusão).
No conteúdo, ao lado de "binómios" onde pesa sobretudo o lado visual (como em "Well there's one thing you can't lose, it's that feel", "Lho, here I go!", "The tea drinker", "When life imitates art", que são, de si, grandes fotos - e talvez por isso o título surja às vezes como uma excrescência), há outros onde os títulos transformam imagens vulgares em inquietações ("Trying", Feeling Pollock III", "There's always a suspect" - que parece a transposição plástica de "What the hell is he building in there?") ou risos abertos ("Neighbourhood watch" e, em geral, a série "Not what you think").
Mas os meus "binómios" preferidos são aqueles onde as imagens e os títulos se apresentam com o mesmo grau de intensidade, onde os dois elementos aderem sem folga na criação de um sentido original ("Oh yes, I can see now!", "Immigration", "May day", "Mapping the garden", "Split personality", "Hope", "Love at first sight", "La noia", "Keep moving", "Why don't you love me?", "Nightmare III", "Tango", "To Mrs. Plath" e "Grief").
Decerto, "It is all in your mind" - mas é preciso saber rasgar as janelas. Parabéns, miúda!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

93. Um lugar triste

Há dias fizemos umas excursões aos mosteiros mais antigos da zona, Lorvão (séc. IX?) e Vacariça (séc. X?). No que aqui interessa: na Vacariça, porque do mosteiro só resta uma casa particular ornada de botijas de gás vazias, carcaças de automóveis e vestígios plumares da preparação de uma cabidela, perguntámos a uma cidadã onde era a antiga prisão. Olhou-nos com um sorriso desolado, que não nos entusiasmássemos muito: "sabe, isto dantes era histórico, agora é só um lugar triste".
À noite, vi a apresentadora de um programa filantrópico perguntar a um rapaz com ar meio perdido, a quem tinham feito uma cirurgia filantrópica: "então, estás contente com as tuas orelhas novas?".
A vantagem da cidadã da Vacariça é que julga haver, em volta, um país melhor.

domingo, 25 de janeiro de 2009

92. Pequenas coisas perfeitas
















"Desperto ainda oiço chegar o inverno -
onde iria com seus martelos de silêncio
seus cavalos lentos pela névoa
os dedos minúsculos sobre a pedra?"


Eugénio de Andrade, Rente à fala

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

90. Whitman na Ribeira das Cambas

A noiseless patient spider,
I mark'd where on a little promontory it stood isolated,
Mark'd how to explore the vacant vast surrounding,
It launch'd forth filament, filament, filament out of itself,
Ever unreeling them, ever tirelessly speeding them.

And you O my soul where you stand,
Surrounded, detached, in measureless oceans of space,
Ceaselessly musing, venturing, throwing, seeking the spheres to
connect them,
Till the bridge you will need be form'd, till the ductile anchor hold,
Till the gossamer thread you fling catch somewhere, O my soul.
(Walt Whitman, A Noiseless Patient Spider); para a Micha, fingindo que hoje é dia 20 de Janeiro.

domingo, 11 de janeiro de 2009

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

88. Boas Festas


diz quem viu que foi quando desceram, vinham abraçados, as asas enrodilharam-se no cruzamento das linhas, no ponto marcado com um X, como se estivesse marcado, digo, o ponto exacto, ou o encontro, ninguém sabe. mas materializaram-se em cinza, a árvore secou e quem paga o prejuízo, perguntavam os velhos de mãos torcidas.

felizmente sobraram os fatos, e é natal, alguém há-de precisar

sábado, 13 de dezembro de 2008

86. Bukowski meets Muñoz


"(...) and as I got closer























































I saw that his eyes were brilliant, like blue lights watching me."


(Juan Muñoz, Many Times, Fundação Serralves, 2008; Charles Bukowski, Ham on Rye, 1982)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

84. Bit Sematary



Estes estão aqui, quietos e inacessíveis, como se espera deles.















No limbo andarão os outros, os zilhões de outros que destruímos nos rascunhos e fotografias falhadas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

83. Daniel, sim, mas não neste mundo

O problema do exercício da justiça divina na terra é que os seus destinatários - os punidos e os recompensados - raramente se apercebem de que ela é actuada. Por isso não é bem justiça: é só poder, sob as espécies do castigo e da graça.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

82. Eclosões




81. Coincidências

Hoje fui assinar o meu novo contrato de trabalho.
Minutos depois, na fila para o pão, ouvia uma cliente sentenciar: "de graça trabalham os cães, e ainda levam pancada".
Espero que não fosse um sinal.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

80. Reedições

Por este post do A&OD lembrei-me de um Cartola extraordinário que pus há uns tempos no Mar Salgado, numa série comissariada pela Micha, porém para um público provavelmente pouco cartolista.
Justifica-se uma reedição:

79. Ama a ti próprio como ao próximo

Tratar do corpo é como procurar a salvação da alma: ninguém garante que a renúncia ao vício ou ao pecado nos dê mais vida, terrena ou celeste.
Mas se fazemos o bem por princípio, não haveríamos de começar em nós?

sábado, 15 de novembro de 2008

78. "Long did I lie in the dust of Egypt, silent and unaware of the seasons."*

O que faz o viajante quando o deserto acaba?
Não sei. Começa por sacudir a areia.

* Khalil Gibran, Sand and Foam (1926)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

77. See?



Lions do change!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

76. Nos muros











Angali (2008)

sábado, 20 de setembro de 2008

75. Perse (versão 1.0)


Estreitas são as naus...

2-

No coração do homem, solidão. Estranho o homem, sem beira, ao pé da mulher, ribeirinha. E eu mar de mim mesmo orientado para ti, como na tua areia de ouro misturado, que eu vá de novo e tarde, sobre a tua riba, no desenrolamento tão lento dos teus anéis de argila – mulher que se faz e se desfaz com a vaga que a engendra...


E tu mais casta por estares mais nua, somente de tuas mãos vestida, tu não és Virgem dos grandes fundos, Vitória de bronze ou de pedra branca que se recolha, com a ânfora, nas grandes malhas carregadas de algas dos jornaleiros de mar; mas carne de mulher no meu rosto, calor de mulher sob o meu olfacto, e mulher que alumia o seu aroma como a chama de fogo rosa entre os dedos semi-juntos.


E como o sal está no trigo, o mar em ti no seu princípio, a coisa em ti que fora de mar, fez-te esse gosto de mulher feliz e de quem nos abeiramos... E o teu rosto está revirado, a tua boca é fruto a consumir, no fundo do barco, pela noite. Livre o meu sopro sobre a tua garganta, e a subida, de todas as partes, dos lençóis do desejo, como nas marés vivas, quando a terra fêmea se abre ao mar salaz e macio, ornado de bolhas, até aos seus charcos, suas rias, e a maré alta nos pastos faz o seu barulho de nora, a noite está cheia de eclosões...


Ó meu amor com gosto de mar, que outros apascentem longe de mar a écloga no fundo dos valezinhos cercados – mentas, melissa e meliloto, calores de alisso e de orégão – e que um fale de tomadias de abelhas, e outro assista à parição do anho, e a ovelha feltrosa beije a terra no fundo das paredes de pólen negro. No tempo em que os pêssegos enodam, e os atilhos são escolhidos para a vinha, eu cortei o nó de cânhamo que segura o casco no seu berço, no seu berço de madeira. E o meu amor está sobre os mares! e a minha queimadura está sobre os mares!...


Estreitas são as naus, estreita a aliança; e mais estreita a tua medida, ó corpo fiel da Amante... E o que é este corpo ele próprio, senão imagem e forma do navio? bote e barco, e nave votiva, até à sua abertura média; instruído em forma de querena, e sobre suas curvas afeiçoado, vergando o duplo arco de marfim à vontade das curvas nascidas de mar... Os ajuntadores de cascos, em todos os tempos, tiveram este jeito de ligar a quilha ao jogo das juntas e cavernas.


Nau, minha bela nau, que cede sobre suas juntas e transporta a carga de uma noite de homem, tu és-me nau que leva rosas. Rompes sobre a água cadeia de oferendas. E aqui estamos, contra a morte, nos caminhos de acantos negros do mar escarlate... Imensa a aurora chamada mar, imensa a extensão das águas, e sobre a terra feita sonho aos nossos confins violetas, todo o marulho que ao longe se levanta e se coroa de jacintos como um povo de amantes!


Não há usurpação mais alta do que na nau do amor.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

74. Perse


No próximo dia 20, completam-se 33 anos sobre a morte de Saint-John Perse. Até lá, o ângulo morto é dele, com traduções minhas. Ser amador é ser mais livre.








Mar de Baal, Mar de Mammon

(...)

2.

Com aqueles que, indo-se, deixam às areias as sandálias, com aqueles que, calando-se, se abrem as vias do sonho sem retorno,

Caminhamos um dia para ti nas nossas roupas de festa, Mar inocência do Solstício, Mar despreocupação do acolhimento, e já não sabemos bem onde param os nossos passos…

Ou és tu, fumo do umbral, que por ti mesmo te elevas em nós como o espírito sagrado do vinho nos vasos de madeira violeta, no tempo dos astros incandescentes?

Nós assediamos-te, Esplendor! E parasitar-te-emos, colmeia dos deuses, ó mil e mil quartos de espuma onde se consuma o delito. – Sê connosco, riso de Cumes e último grito do Efesiano!...

Assim o Conquistador, sob a sua pluma de guerra, às últimas portas do Santuário: «Habitarei os quartos interditos e aí passearei…» Betume dos mortos, não sois o adubo desses lugares!

E tu, tu auxiliar-nos-ás contra a noite dos homens, lava esplêndida no nosso umbral, ó Mar aberto ao triplo drama: Mar do transe e do delito; Mar da festa e do fulgor; e Mar também da acção!

*No prato: Michael Nyman, Prospero's Magic (Prospero's Books, 1991)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

73. O primeiro mês

No regresso de férias, encontro um Setembro como gosto, na luz, no tempo, em alegrias doces. Vêm aí os figos e o mourisco, depois as nozes e as castanhas pequenas.
Não sei exactamente em que Era o mundo entra, mas paira por aqui um odor inconfundível de vida nova.



*No prato: David Sylvian, Let the Happiness in