
sábado, 2 de abril de 2011
156. Ao povo o que lhe pertence (II)

Fachada oeste da antiga sede do Comité Central do Partido dos Trabalhadores Polacos Unidos - Polska Zjednoczona Partia Robotnicza (PZPR), construída entre 1948-52 e financiada através de uma contribuição popular obrigatória.
155. Ao povo o que lhe pertence (I)
terça-feira, 15 de março de 2011
154. E se de repente

Claro, "ninguém torna ao que acabou". E foi acabando tanta coisa que a terra ficou estranha, surpreendente de silêncios e desertos, tantos anos e nunca estive aqui não sei quem és.
Nada pôde voltar a brilhar como os olhos daquela miúda gloriosamente suja quando viu a bola de berlim chegar à mesa. Ainda bem, mas não, agora as bolas de berlim são calorias sem felicidade dentro. Não sei se a lua amarela ainda, talvez.
Já não há vagares de peixe frito ao fim da tarde no fim do rio, nem os brancos minerais antigos que fermentavam descontroladamente. Eram zurrapas, diz-me quem diz que sabe. Seriam, mas nós éramos o quê.
Porém há de repente uma casa por reerguer, acho que faltam tílias, cerejeiras e figueiras, se alguém tiver de sobra é favor deixar aqui.
Nada pôde voltar a brilhar como os olhos daquela miúda gloriosamente suja quando viu a bola de berlim chegar à mesa. Ainda bem, mas não, agora as bolas de berlim são calorias sem felicidade dentro. Não sei se a lua amarela ainda, talvez.
Já não há vagares de peixe frito ao fim da tarde no fim do rio, nem os brancos minerais antigos que fermentavam descontroladamente. Eram zurrapas, diz-me quem diz que sabe. Seriam, mas nós éramos o quê.
Porém há de repente uma casa por reerguer, acho que faltam tílias, cerejeiras e figueiras, se alguém tiver de sobra é favor deixar aqui.
*No prato, um favorito da altura: Van Morrison, Rave on John Donne
terça-feira, 1 de março de 2011
153. Provavelmente estava vento, e os rios ainda devem estar altos, e tal...
domingo, 20 de fevereiro de 2011
domingo, 13 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
150. O céu é o limite

O extraordinário anúncio da aprovação, pela Igreja Católica, da app iPhone para penitentes relembrou-me que continuo sem responder ao que ando a perguntar-me na última década: por que razão ainda não apostatei, tornando-me protestante?
Há uns meses, conheci um padre ortodoxo numa pequena ilha grega a quem dei conta (ao fim de meia dúzia de Amstel e meio quilo de azeitonas) das minhas inclinações íntimas para o protestantismo. Foi o único momento tenso da noite: o homem apertou-me o braço com força e repetiu "Bleib wo du bist; bleib wo du bist". Só então compreendi que, para os ortodoxos, o catolicismo é o limite da Reforma tolerável - a partir daí, dizia-me ele, já não é religião, é "política e business".
Ainda tentei argumentar, mas percebi que o meu alemão não é suficiente para querelas teológicas; e aquela força na expressão (e nos dedos enterrados no meu braço) impressionou-me.
Política e business, dizia ele. Só que isto não ajuda.
Há uns meses, conheci um padre ortodoxo numa pequena ilha grega a quem dei conta (ao fim de meia dúzia de Amstel e meio quilo de azeitonas) das minhas inclinações íntimas para o protestantismo. Foi o único momento tenso da noite: o homem apertou-me o braço com força e repetiu "Bleib wo du bist; bleib wo du bist". Só então compreendi que, para os ortodoxos, o catolicismo é o limite da Reforma tolerável - a partir daí, dizia-me ele, já não é religião, é "política e business".
Ainda tentei argumentar, mas percebi que o meu alemão não é suficiente para querelas teológicas; e aquela força na expressão (e nos dedos enterrados no meu braço) impressionou-me.
Política e business, dizia ele. Só que isto não ajuda.

Por outro lado: talvez a indiferença perante as etiquetas que entretanto se instalou em mim corresponda já a uma certa compreensão da relação com Deus. Pouco ortodoxa, pouco católica.*No prato: Michael Nyman Band, Chasing sheep is best left to shepherds
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
148. Что делать?
Cavaco permanece, Sócrates resiste, a crise - ah, a crise...! - entranha-se, gelamos mas não neva, a justiça processa-se a si própria, o Rei dos Leitões está fechado para obras, gente sábia e ilustre assina uma petição popular lançada por um jornal que "revela", na página ao lado, fotografias do saca-rolhas utilizado para mutilar um colunista social, alguns milhares de cidadãos não podem votar porque têm um cartão a atestar que o são, a Tunísia e o Egipto foram uma grande surpresa, excepto para aqueles que já esperavam isto há 15 anos, talvez mais.
* No prato: Radiohead, No surprises
* No prato: Radiohead, No surprises
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
146. Nos muros

No muro da Torre de Anto (2010).
(como vê, antónio,
mais vale
mal acompanhado)
No prato: Ólöf Arnalds / Björk, Surrender (descoberto por aqui)
sábado, 25 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
143. Positivo
Uma das vantagens de viver em Portugal é que as férias no estrangeiro parecem cada vez mais baratas.
domingo, 29 de agosto de 2010
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
141. Nos muros (a propósito de República e mau sangue)
sábado, 31 de julho de 2010
140. Haiku
tarde seca de agosto
a cruz branca de pedra
única sombra na terra
a cruz branca de pedra
única sombra na terra
* No prato: Dire Straits, Follow me home, extraordinária versão ao vivo (Rockpalast, 1979)
terça-feira, 27 de julho de 2010
domingo, 18 de julho de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
domingo, 4 de julho de 2010
domingo, 13 de junho de 2010
134. Por entre as vuvuzelas I
sábado, 12 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
sexta-feira, 4 de junho de 2010
131. Some boys tend to act like queens
Dá-se uma volta por aí, por todo o lado onde se publica opinião, e a conclusão é assustadora: somos agora 10 milhões de Vascos Pulidos Valentes. Com 10 milhões de émulos, VPV já é só mais um, neste mar de desprezo próprio, azedume e sarcasmo. Resta-lhe a originalidade da forma, que é de mais difícil apropriação.
Ninguém sabe o que fazer, mas todos têm a certeza de que o que se faz e o que se pretende fazer é risível. Cada português sofre de uma aflição profunda: à sua volta vê apenas burros, incompetentes e oportunistas. Está inexoravelmente sozinho e, assim, não vale a pena.
Se ao menos mais alguém se desse conta disto.
Ninguém sabe o que fazer, mas todos têm a certeza de que o que se faz e o que se pretende fazer é risível. Cada português sofre de uma aflição profunda: à sua volta vê apenas burros, incompetentes e oportunistas. Está inexoravelmente sozinho e, assim, não vale a pena.
Se ao menos mais alguém se desse conta disto.
* No prato: CocoRosie, Terrible angels
domingo, 23 de maio de 2010
130. Dog Mendonça e Pizzaboy andem aí
Por um acaso fortuito como todos os acasos, especialmente os que nos trazem coisas boas e inesperadas, encontrei o Filipe Melo num restaurante de Canas de Senhorim, por intermédio de amigos comuns. Creio que já o conhecia, de o ter visto tocar com os Moreira Bros., mas não como autor de BD.
No meio da conversa, vi-me com um exemplar de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy nas mãos. História e diálogos dele, ilustrações de Juan Cavia, prefácio de John Landis, num thriller divertido e ritmado que mistura pizza, gárgulas decapitadas, Mengele e os esgotos de Lisboa, recheado de referências a filmes de culto. Em apêndice, o making of.
O grafismo e, em particular, o trabalho dos coloristas é irrepreensível, tornando o livro, para além do resto, num objecto bonito.
Cumprindo a recomendação do Adolf, fica um aperitivo e, a seguir, uma das mais deliciosas pranchas de toda a BD.
No meio da conversa, vi-me com um exemplar de As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy nas mãos. História e diálogos dele, ilustrações de Juan Cavia, prefácio de John Landis, num thriller divertido e ritmado que mistura pizza, gárgulas decapitadas, Mengele e os esgotos de Lisboa, recheado de referências a filmes de culto. Em apêndice, o making of.
O grafismo e, em particular, o trabalho dos coloristas é irrepreensível, tornando o livro, para além do resto, num objecto bonito.
Cumprindo a recomendação do Adolf, fica um aperitivo e, a seguir, uma das mais deliciosas pranchas de toda a BD.

* No prato: Girls against Boys, She's lost control (o tema que eu escolheria para a Pazuul, a pequena Pazuzu)
segunda-feira, 26 de abril de 2010
129. Gn 2
No sábado, ouvi um padre que muito admiro narrar uma bela versão da criação: Adão e Eva foram, ab initio, um projecto de amor divino, que os fez incompletos para que se completassem. Seriam, portanto, resultado e representação do amor absoluto, duas metades do Ser que se realiza na acção.
Não parece que tenha sido bem assim: a história do Génesis é muito mais sombria.
Deus fez o homem e mandou-o cultivar e guardar o jardim do Éden (Gn 2: 15). Só depois percebeu que não era conveniente que o homem estivesse sozinho, e decidiu dar-lhe uma "auxiliar" (Gn 2: 18). E a mulher torna-se necessária apenas quando o homem, tendo dado nome a todos os animais, não descobriu neles uma "auxiliar adequada" (Gn 2: 20).
Portanto: o tédio, a angústia e a insatisfação são anteriores à mulher. Ela "auxiliou" o homem, e alguma coisa melhorou; mas depois ganhou a sua própria agenda (começou por aprender serpentino) e o homem ficou ali, parado e mudo, a olhar o paraíso onde era "inconveniente" que estivesse sozinho. E era, de facto, mas sem que pudesse compreender porquê.
Por isso, se perguntados, continuamos, como Adão, a responder mecanicamente: "Em nada. Não estou a pensar em nada".
Não parece que tenha sido bem assim: a história do Génesis é muito mais sombria.
Deus fez o homem e mandou-o cultivar e guardar o jardim do Éden (Gn 2: 15). Só depois percebeu que não era conveniente que o homem estivesse sozinho, e decidiu dar-lhe uma "auxiliar" (Gn 2: 18). E a mulher torna-se necessária apenas quando o homem, tendo dado nome a todos os animais, não descobriu neles uma "auxiliar adequada" (Gn 2: 20).
Portanto: o tédio, a angústia e a insatisfação são anteriores à mulher. Ela "auxiliou" o homem, e alguma coisa melhorou; mas depois ganhou a sua própria agenda (começou por aprender serpentino) e o homem ficou ali, parado e mudo, a olhar o paraíso onde era "inconveniente" que estivesse sozinho. E era, de facto, mas sem que pudesse compreender porquê.
Por isso, se perguntados, continuamos, como Adão, a responder mecanicamente: "Em nada. Não estou a pensar em nada".
*No prato: Pink Floyd, Wot's... uh the deal?
segunda-feira, 19 de abril de 2010
128.
Here, across death's other river
The Tartar horsemen shake their spears
T. S. Eliot, The wind sprang up at four o'clock
* No prato: Brian Eno, By this river
The Tartar horsemen shake their spears
T. S. Eliot, The wind sprang up at four o'clock
* No prato: Brian Eno, By this river
segunda-feira, 5 de abril de 2010
127. Efeitos secundários
"... em alguns pacientes pode verificar-se náusea, indigestão, irritabilidade, sonhos anormais (...)".
Confirmo. A noite passada voei para o crepúsculo montado numa espécie de cabra alada e o ambiente era mais ou menos este:
Confirmo. A noite passada voei para o crepúsculo montado numa espécie de cabra alada e o ambiente era mais ou menos este:
*No prato: Lemongrass, A journey to a star
quarta-feira, 24 de março de 2010
126. Whatever works*
Durante alguns anos, aquelas EF Windsor Elongated brancas sobre fundo preto foram, simultaneamente, prenúncio de um prazer sempre demasiado curto e, no fim do filme, sinal melancólico de que começava um ou dois anos de privação. Depois, produziu-se um milagre chamado VHS e, com ele, as cópias sôfregas e ilícitas que nos permitiram possuir as fitas. As Windsor Elongated perderam um pouco daquele pathos, hoje servem só de senha aos fiéis.
Whatever works, sem ser estupendo, é um filme divertidíssimo, com um pormenor curioso.
Boris Yelnikoff é, evidentemente, a persona de Woody Allen, onde rodopiam, em caleidoscópio, Virgil Starkwell, Alvy Singer, Isaac e Harry Block. Mas se tivesse sido o próprio W. Allen a desempenhar Boris Yelnikoff em vez do (aliás magnífico) Larry David, suspeito que nos enfadaríamos. As catilinárias corrosivas, intermináveis e hilariantes de Boris ganham outra altura e graça se as desligarmos de W. Allen representando-se a si próprio. Encarnam na nossa realidade, como se fosse possível ser assim para lá de W. Allen.
E eis o paradoxo: a sobre-representação de si próprio conduz, a termo, a que a persona representada fique melhor nas mãos de outro: hello, I must be going.
* No prato: Groucho Marx, Hello, I must be going
Whatever works, sem ser estupendo, é um filme divertidíssimo, com um pormenor curioso.
Boris Yelnikoff é, evidentemente, a persona de Woody Allen, onde rodopiam, em caleidoscópio, Virgil Starkwell, Alvy Singer, Isaac e Harry Block. Mas se tivesse sido o próprio W. Allen a desempenhar Boris Yelnikoff em vez do (aliás magnífico) Larry David, suspeito que nos enfadaríamos. As catilinárias corrosivas, intermináveis e hilariantes de Boris ganham outra altura e graça se as desligarmos de W. Allen representando-se a si próprio. Encarnam na nossa realidade, como se fosse possível ser assim para lá de W. Allen.
E eis o paradoxo: a sobre-representação de si próprio conduz, a termo, a que a persona representada fique melhor nas mãos de outro: hello, I must be going.
* No prato: Groucho Marx, Hello, I must be going
sexta-feira, 12 de março de 2010
125. Certi vecchi antichi
Fantástica receita barese de... riso, patate e cozze . Como diz a senhora de amarelo, mondial (créditos: Pino).
sábado, 6 de março de 2010
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
121. Ad augusta per angusta
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
120. Eterno retorno?
Depois de uma semana de birrinhas entre o Senhor Presidente e o Senhor Primeiro-Ministro e de uma agressão ao Papa, sinto-me tão completamente eighties:
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
117. A presteza do mal



Celebrámos condignamente o primeiro domingo de chuva invernosa: telefones desligados, espreguiçamento geral e, no DVD, Vampyr, de Carl Th. Dreyer (1932); mais logo, castanhas assadas.
Diz Dreyer: "quis criar na tela um sonho acordado e mostrar que o horrível não se encontra nas coisas que nos rodeiam, mas no nosso subconsciente".
A cena da morte do médico (Jan Hieronimko), sufocado pela farinha que vai sendo moída na azenha, foi parcialmente censurada na primeira exibição do filme, em Berlim, no ano de 1932 (tal como, aliás, a execução da vampira com o inevitável ferro aguçado no peito). Na verdade, a agonia do médico foi abreviada.
A edição que comprámos tem as duas cenas originais (mais 53 metros de fita), mantidas na versão francesa. E o médico da aldeia morre, de facto, mais devagar, no meio da farinha branca, exibindo um sofrimento inusitadamente real para a cinematografia da época.
Não mais do que dez anos depois, também em Berlim, Am Grossen Wannsee, decidia-se a Endlösung, onde a sufocação por gás teria um papel preponderante.
Sim, o horrível está no subconsciente, não admira que o mal irrompa de um momento para o outro e se "banalize" (Arendt), na sua realização, com facilidade.
A cena da morte do médico (Jan Hieronimko), sufocado pela farinha que vai sendo moída na azenha, foi parcialmente censurada na primeira exibição do filme, em Berlim, no ano de 1932 (tal como, aliás, a execução da vampira com o inevitável ferro aguçado no peito). Na verdade, a agonia do médico foi abreviada.
A edição que comprámos tem as duas cenas originais (mais 53 metros de fita), mantidas na versão francesa. E o médico da aldeia morre, de facto, mais devagar, no meio da farinha branca, exibindo um sofrimento inusitadamente real para a cinematografia da época.
Não mais do que dez anos depois, também em Berlim, Am Grossen Wannsee, decidia-se a Endlösung, onde a sufocação por gás teria um papel preponderante.
Sim, o horrível está no subconsciente, não admira que o mal irrompa de um momento para o outro e se "banalize" (Arendt), na sua realização, com facilidade.
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